DOENÇA DE McARDLE

GLICOGENOSE DO TIPO V


Introdução 

As Glicogenoses:

As miopatias de depósito podem ser devidas ao acúmulo de polissacárides ou de lípides. Entre os polissacárides destacamos o glicogênio, embora de maneira excepcional, possam ser encontrados outros, como as glicoproteínas, polissacárides neutros e mucopolissacárides neutros.

O glicogênio é encontrado em praticamente todos os tecidos, destacando-se o hepático e o muscular esquelético. O metabolismo do glicogênio é regulado por um sistema enzimático que, quando alterado, acarreta importantes modificações no seu teor, bem como na sua estrutura.

As glicogenoses se caracterizam por um depósito anormalmente aumentado de glicogênio nos diversos tecidos, cuja estrutura pode ser normal ou anormal. Essa alteração ocorre por ausência ou deficiência de enzimas envolvidos no processo de síntese e degradação do glicogênio. Em se considerando os aspectos clínicos, as glicogenoses podem ser divididas em quatro tipos, dependendo de sua distribuição: muscular, hepática, hepato-muscular e generalizada. A classificação numérica adotada é a que foi proposta por Gerty Cori, em 1957, chegando ao número VI. Desde então, outras foram descritas.

Definição da Glicogenose tipo V

A Glicogenose tipo V ou Doença de Von Gierke, descrita em 1951,  é um erro inato do metabolismo de expressão essencialmente muscular, que consiste na incapacidade para metabolizar glicogênio em glicose-1-fosfato, ácido lático e pirúvico.  O bebê já nasce com a doença, mas essa só se manifesta no período da primeira infância, quando a criança começa a fazer mais exercícios como correr, pular, nadar e que exigem mais esforços e principalmente, aqueles exercícios que exigem força muscular.

Sinonímia

É uma doença também conhecida pelos seguintes nomes:

·         Doença de Cori tipo V.

·         Glicogenose por deficiência de miofosforilase.

·         Síndrome de McArdle-Schmid-Pearson.

Fisiopatologia

A fosforilase é a primeira enzima da via de degradação do glicogênio. Na sua falta, a fibra muscular tem dificuldade em obter energia através de glicólise anaeróbica. Normalmente, a fibra usa ATP gerado no ciclo de Krebs, que é muito mais abundante, mas requer O2 como aceptor de hidrogênio na cadeia respiratória. Em casos de trabalho muscular intenso, a fibra lança mão da glicólise anaeróbica (cada glicose  resultando em 2 piruvatos + 2 ATP).  Na falta de fosforilase, a fibra pode ficar sem ATP para mover suas bombas iônicas e pode até sofrer necrose  (morte celular). Isto explica a incapacidade em realizar exercícios intensos e prolongados e ocorrência de dores e câimbras nos músculos exercitados. 

Manifestações clínicas

Costuma se manifestar na infância ou adolescência, apresentando a criança dificuldade para desempenhar as mesmas atividade físicas que seus companheiros.

·         Fraqueza muscular quando se exigem os músculos.

·         Cãibras dolorosas por ocasião de esforços físicos.

·         Debilidade persistente.

Obs: A fraqueza muscular quando evidenciada poderá tornar-se permanente, bem como a hipotonia muscular. em 1/3   dos pacientes encontra-se algum comprometimento do tipo miopático discreto, predominando nos membros superiores. Pode ocorrer comprometimento da musculatura cardíaca, embora assintomática. 

Diagnóstico

·         Anamnese.

·         Exame físico.

·         Exame clínico.

·         Exames laboratoriais.

·         Prova de esforço: por ocasião da prova de esforço em condições de isquemia (movimentos da mão e antebraço com  um manguito  de pressão insuflado no braço  até o nível de pressão sistólica e mantém-se por 3 minutos, colhendo-se a seguir, amostras de sangue até 20 minutos), o paciente costuma apresentar contratura dolorosa dos músculos do antebraço, ao mesmo tempo que não ocorre elevação da taxa do ácido lático em virtude da deficiência da  miofosforilase (incapacidade para metabolizar glicogênio em glicose-1-fosfato, ácido lático e pirúvico).

·         ECG - Eletrocardiograma.

·         EMG - Eletromiografia

·         Biópsia do músculo pode revelar um aumento da concentração do glicogênio no músculo, logo abaixo do sarcolema.

·         Estudos bioquímicos quantitativos.

·         Ausência da elevação da taxa do ácido lático durante a prova de esforço, constitui uma prova indireta para o diagnóstico dessa afecção.

Obs Em 2/3  dos pacientes é encontrada mioglobinúria durante o exercício físico, que poderá acarretar insuficiência renal crônica, caso os episódios sejam freqüentes e prolongados.

Tratamento

A terapêutica é baseada na restrição aos exercícios físicos.

Não há tratamento específico para este tipo de distúrbio, entretanto a administração de frutose por via oral ou de glucagon por via muscular tem sido tentada, mas o uso prolongado é desalentador.

Prognóstico: O prognóstico costuma ser bom, devendo o portador evitar as atividades físicas intensas e os esforços físicos pesados. Geralmente, por toda a vida.

Seqüelas

·         Quadro de insuficiência renal, em alguns casos pode estar presente, principalmente em crianças ou adolescentes que apresentam mioglobinúria após exercícios físicos.

·         Hipotrofia muscular pode ocorrer, embora seja excepcional, na musculatura proximal dos membros.

·         Infelizmente o portador deste tipo de distúrbio não pode fazer exercícios físicos que exijam muito dos músculos, ou exercícios físicos extenuantes.


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