ANOREXIA NERVOSA


Definição Transtorno Alimentar

Os Transtornos Alimentares são definidos como desvios do comportamento alimentar, que podem levar ao emagrecimento extremo (caquexia) ou à obesidade, entre outros problemas físicos e alguns tipos de incapacidades. Os Transtornos Alimentares são todos aqueles que se caracterizam por apresentar alterações graves na conduta alimentar. As mulheres são as grandes vítimas dos transtornos alimentares. Os Transtornos Alimentares na área psiquiátrica, são definidos como quadros psiquiátricos que afetam principalmente, adolescentes e adultos jovens do sexo feminino, provocando aumento de morbidade e mortalidade nessa população.

Introdução

A Anorexia nervosa é um transtorno alimentar grave. A Anorexia nervosa caracteriza-se pelo intenso emagrecimento, à custa de restrição alimentar, com busca desenfreada da magreza, recusa em readquirir o peso considerado esperado para a idade e altura da paciente, distorção da imagem corporal e ausência de ciclos menstruais. A Anorexia nervosa acomete em sua grande maioria adolescentes, mas tem-se observado, casos isolados com início na infância ou depois  dos 30 anos. O termo Anorexia pode não ser de todo correto, tendo em vista que não há uma verdadeira perda do apetite, mas sim, uma recusa consciente em se alimentar. Geralmente, a Anorexia se desenvolve quando a pessoa muda seus padrões alimentares do normal a uma dieta muito restrita. Uma anoréxica lida muito bem com dietas e gosta da sensação de fome, mas continua com a dieta, mesmo quando  já alcançou os resultados desejados. Com o tempo, o que começou de uma forma restritiva, se torna progressivamente uma privação completa. Não há final ou parada, o que começou com controle, fica simplesmente fora de controle.

 As pacientes anoréxicas geralmente recusam-se a comer em público. Apresentam pensamentos constantes sobre alimentação, levando-o a colecionar receitas, preparar refeições elaboradas para outras pessoas ou insistir que os outro comam exageradamente. O temor intenso de ganhar peso e a falta total  de juízo crítico para o seu estado mórbido fazem parte do estado clínico e dificultam o tratamento. Na rigorosa dieta de abstenção das anoréxicas, uma  maçã é algo grave, e uma guloseima com mais calorias pode causar verdadeira fobia. Elas passam fome durante longos períodos do dia, praticam esporte em excesso e se acham gordas, mesmo que os ossos apareçam sob a pele. Ao mesmo tempo, podem ter prazer em cozinhar para outras pessoas. Mas, enquanto o fazem, planejam truques para se livrar discretamente da porção que lhes caberia. A pessoa que pesa menos que 85% do peso considerado normal para a idade e altura costuma ser um dado importante  para se pensar em Anorexia. A CID-10 (Classificação internacional de Doenças) recomenda que a pessoa tenha um Índice  de Massa Corporal (IMC) igual ou inferior a 17,5 kg/m2 sugestivo de Anorexia. O IMC é calculado dividindo-se o peso em quilogramas pela altura em metros.

Incidência

·         Geralmente, após um a dois anos de Anorexia, cerca de 50% das pacientes apresentam sintomas de Bulimia.

·         Incidência quase total em mulheres, cerca de 95% dos casos.

·         As pacientes são em geral reservadas e negam seus sintomas.

·         A Anorexia nervosa é uma das causas para  interrupção da menstruação (amenorreia), e nos homens pode causar a disfunção erétil.

·         A Anorexia nervosa é o distúrbio psiquiátrico que mais causa morte, entre os seus portadores.

·         Prevalência maior em sociedades industrializadas.

·         A doença acomete mais frequentemente pessoas de classes sociais mais elevadas.

·         Bailarinas e modelos têm um risco mais alto para o desenvolvimento de transtornos alimentares, principalmente, a Anorexia.

·         Nas últimas décadas a incidência de Anorexia nervosa tem aumentado.

Causas

Ainda não se conhecem as causas fundamentais da Anorexia nervosa. Existe uma corrente de estudiosos, que evidencia como causa a interação sociocultural mal-adaptada, fatores biológicos, mecanismos psicológicos menos específicos e especial vulnerabilidade de personalidade. Alguns trabalhos apontam para uma predisposição genética no desenvolvimento da Anorexia.  Parentes de primeiro grau de pacientes com Anorexia, exibem um risco de aproximadamente 8 vezes maior de apresentar a doença, do que a população geral.

Diferenças entre pacientes com transtornos alimentares

 

ANOREXIA

BULIMIA

COMPULSÃO ALIMENTAR

 TCAP*      

Grande maioria de mulheres

Grande maioria de mulheres

Maioria de mulheres, mas há bem mais homens que nos outros transtornos

Maioria de mulheres, mas há bem mais homens que nos outros transtornos

 

Algumas, além de restringir alimentação, vomitam (por auto-indução ou com remédios)

Vomitam (por auto-indução ou com uso de remédios) recorrentemente após episódios compulsivos

Não apresentam vômitos

Não apresentam vômitos

Abusam de diuréticos e laxantes

Algumas abusam  de diuréticos e laxantes.

Não usam diuréticos ou laxantes

Não usam diuréticos ou laxantes

 

Apresentam perda de peso grave

Apresentam peso normal ou acima do normal. Depois de algum tempo, podem evoluir para a perda de peso

75% apresentam obesidade.

30%  a 40% apresentam obesidade

Possuem  grande  distorção  da   imagem    corporal, tanto própria quanto alheia

Distorção da imagem corporal é menos acentuada.

Não há distorção da imagem corporal.

Não há distorção da imagem corporal.

Negam a fome

Tentam controlar a fome

Alimentam-se normalmente durante o dia, mas têm episódios onde comem em demasiado

Têm episódios recorrentes de comer compulsivo, em qualquer horário

São introvertidas.

São mais extrovertidas

São introvertidos

São introvertidos e depressivos

Não tem sentimento de culpa

Sentem-se culpadas por seu comportamento

Não se culpam pelo comportamento

Sentem-se culpadas por seu comportamento.

A menstruação pára

A menstruação pode se tornar irregular

A menstruação não sofre qualquer  interferência

A menstruação não sofre qualquer interferência.

Podem apresentar problemas afetivos

Podem apresentar problemas afetivos e abuso de álcool , cigarro e drogas

Podem apresentar problemas afetivos

Podem apresentar problemas afetivos

Não apresentam depressão

Podem apresentar quadro de depressão leve

Não apresentam depressão

Apresentam quadros de depressão moderada a grave

                                                            * TCAP - Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica

 

Perfil do portador de Anorexia nervosa

·         Cerca de 95% são mulheres.

·         Geralmente são pessoas da raça branca.

·         Solteiras e jovens.

·         Alunas exemplares e com excelentes notas.

·         Adultos que têm uma vida cômoda.

·         Bem sucedidos profissionalmente.

·         São excelentes profissionais.

·         São altamente disciplinadas.

·         Dão muito valor à aparência esbelta.

·         São introspectivas.

·         Perfeccionistas e meticulosas.

·         São rígidas consigo mesmas, para atingir as suas metas.

·         Têm poucos amigos.

·         Gostam de se isolar.

·         São calmas.

·         Evitam comer em público.

·         Muitas têm complexo de inferioridade de algum tipo.

Fatores desencadeantes

Os fatores desencadeantes são situações ou fatores  que juntos ou individualmente, podem desencadear ou contribuir, para o início do processo evolutivo da Anorexia nervosa.

·         Dietas para perda de peso.

·         Exigência profissional (caso específico das modelos).

·         Problemas de comportamento.

·         Baixa da auto-estima.

·         Fixação na aparência.

·         Competição para perda de peso.

·         Fatores ambientais.

·         Stress emocional forte.

·         Falta de tempo ou ausência dos pais que precisam trabalhar (casos de crianças e adolescentes).

·         Separação dos pais.

·         Falta de comunicação na família.

·         Violência sexual.

Obs:  A violência sexual é considerada pelos terapeutas, um fator importante de risco para a incidência de distúrbios alimentares, particularmente a Anorexia.  

Tipos

Tipo Restritivo: neste tipo a perda de peso é conseguida, principalmente, através de dietas, jejuns ou exercícios excessivos. Durante o episódio atual de Anorexia nervosa, a paciente não se envolveu regularmente em um comportamento de comer compulsivamente ou de purgação (auto indução de vômitos ou uso indevido de laxantes, diuréticos ou enemas).

Tipo Compulsão Periódica / Purgativo: durante o episódio atual de Anorexia nervosa, a paciente envolveu-se regularmente em um comportamento de comer compulsivamente ou de purgação (auto-indução de vômito ou uso indevido de laxantes, diuréticos ou enemas). Aparentemente, a maior parte das pacientes que se enquadram nesse tipo, dedicam-se a esses comportamentos pelo menos 1 vez por semana.

Anorexia em crianças

Como ocorre entre os adultos, a criança anoréxica demonstra temor exagerado de ganhar peso e acha que está gorda mesmo sendo magra. Alguns sintomas, no entanto, diferem dos apresentados por adultos, e isso costuma confundir os pais. A criança não fica com aquele aspecto cadavérico, de pele e osso. Ela simplesmente não ganha peso e, nessa fase, se não ganha peso, significa que está desnutrida.  A dieta das crianças, feita por conta própria, às vezes é mais agressiva que a dos adultos.  Elas são capazes de ficar um dia inteiro sem comer e, quando o fazem, preferem uma bolacha de chocolate ou um sorvete, o que as deixa com sentimento de culpa.  As conseqüências da Anorexia infantil são num primeiro estágio, desnutrição, manchas vermelhas na pele, unhas quebradiças e sistema imunológico debilitado. Posteriormente, a doença pode afetar o crescimento. É preciso começar o tratamento com um especialista o mais rápido possível. Nas crianças, a cura da Anorexia demora de oito a dez meses, em média. Os adultos chegam  a levar dez anos para se livrar do problema.

Sinais de alerta

Crianças:

 

A doença não se manifesta da mesma forma que em adultos, por isso muitos pais têm dificuldade em identificá-lo. Alguns sinais de alerta que podem ajudar os pais  a identificar a fase inicial da doença em seus filhos:

 

·         As crianças, diferentemente dos adultos, não ficam com aspecto cadavérico. Elas apenas param de ganhar peso (a criança normal precisa ganhar peso gradualmente na fase de crescimento).

·         A criança começa a se movimentar muito para perder peso: ajuda mais nas tarefas braçais em casa, sobe e desce escadas sem necessidade.

·         Recusa-se a participar de encontros com os amiguinhos em locais onde a comida é uma das atrações principais, como lanchonetes ou festinhas de aniversário.

·         Fica muito tempo na frente do espelho olhando o próprio corpo e, começa a conversar mais sobre dietas e sobre como perder peso.

·         Durante as refeições, critica muito a comida, e cada vez come menos.

·         Começa a falar que está gorda com mais freqüência, e que quer fazer alguma dieta para perder peso.

Adolescentes e adultos:

·         Fala  o tempo todo sobre perder peso ou fazer dieta.

·         Comenta que a perda de peso é sinal de disciplina.

·         Está obcecada pela aparência, e sempre fala que está gorda, apesar de se encontrar no peso ideal.

·         Controle absoluto de todas as calorias ingeridas.

·         Preocupação exagerada com a forma e o peso do corpo.

·         Fazem exercícios exageradamente, em qualquer horário.

·         Uso indiscriminado de substâncias e estimulantes para perder peso e controladores do apetite.

·         Episódios de jejum freqüentes.

·         Tem diarréias frequentes (devido ao uso de laxantes).

·         Costuma esconder comidas pelos armários, banheiros, dentro de roupas, debaixo da cama.

·         Uso de roupas menores que o seu tamanho (no início).

·         Distanciamento da escola.

·         Distanciamento dos amigos.

·         Evita festas e reuniões.

·         Emagrecimento no início discreto, com o tempo começa a ficar mais evidente.

·         Olhos fundos e presença de olheiras.

·         Aparência mais cansada.

·         Desânimo.

·         Sinais de depressão.

·         As roupas ficam grandes no corpo, devido ao emagrecimento.

·         Acessa frequentemente sites sobre Anorexia e/ou Bulimia.

Sinais e sintomas

O sinal característica da doença é o emagrecimento acentuado, que pode  chamar mais a atenção das pessoas, quando está na fase avançada da doença.

Fase avançada:

·         Astenia.

·         Fadiga extrema.

·         Emagrecimento excessivo com o aparecimento dos ossos.

·         Depressão.

·         Irritabilidade.

·         Insônia.

·         Dores abdominais.

·         Olheiras profundas e olhos fundos.

·         Dificuldade de concentração.

·         Diminuição do desejo sexual.

·         Interrupção da menstruação (amenorréia).

·         Hipotensão ( pressão arterial baixa).

·         Temperatura do corpo baixa, mãos e pés sempre frios.

·         Batimentos cardíacos irregulares.

·         Aparecimento de convulsões.

·         Pele seca.

·         Unhas fracas e quebradiças ou que se descascam facilmente.

·         Em alguns pacientes, os pelos do tronco ficam mais finos.

·         Em alguns casos ocorre perda leve de cabelos.

·         Aversão grave à comida.

·         Sinais de envelhecimento: a pele fica enrugada, ressecada e com dobras, perda de massa muscular, aparecimento de rugas e olheiras.

·         Síncope (desmaio).

Obs: Nessa fase é necessário um internamento para estabilizar o organismo e todo o seu metabolismo, que já está prejudicado.

Fase terminal:

·         Coma.

·         Distúrbios eletrolíticos graves.

·         Acidose metabólica.

·         Alcalose metabólica.

·         Infecção generalizada.

·         Hipotensão (diminuição da pressão arterial).

·         Bradipnéia (diminuição da respiração).

·         Bradicardia (diminuição dos batimentos cardíacos).

·         Óbito.

Obs: Geralmente, a morte costuma ocorrer devido à parada cardíaca seguida de parada respiratória. O organismo está completamente debilitado e desestabilizado metabolicamente.

Diagnóstico

·         Anamnese.

·         Exame físico.

·         Exame clínico.

·         Exame psicológico.

·         Exame neurológico (alguns casos específicos).

·         Exame psiquiátrico (alguns casos específicos).

·         Exames laboratoriais.

·         ECG - Eletrocardiograma: geralmente se observa diminuição do ritmo cardíaco (bradicardia sinusial) e também pode detectar outras arritmias cardíacas.

·         EEG - Eletroencefalograma: pode mostrar anormalidades difusas, refletindo uma encefalopatia metabólica, conseqüente dos distúrbios hidroeletrolíticos.

Diretrizes diagnósticas para Anorexia:

·         Peso corporal mantido em pelo menos 15% abaixo do esperado.

·         A perda de peso é auto induzida por abstenção de alimentos que engordam.

·         Vômitos auto induzidos e exercícios abusivos.

·         Distorção da imagem corporal.

·         Transtorno endócrino generalizado

Tratamento

Objetivos:  Restaurar o estado nutricional, estabilizar o quadro clínico e evitar as graves complicações.

 

Equipe multidisciplinar:

·         Psiquiatra especializado em transtornos alimentares.

·         Endocrinologista.

·         Nutricionista.

·         Psicólogo.

 

Obstáculos ao tratamento:

·         Resistência da paciente em admitir que está doente, e que precisa de cuidados médicos e psicológicos.

·         Falta de adesão ao  tratamento.

·         Abandono do tratamento.

·         Em alguns casos particulares, existe a resistência da própria família.

 

O tratamento também visa evitar as complicações da Anorexia: emagrecimento extremamente acentuado, desidratação grave e desequilíbrios metabólicos, devido a inanição,  que podem levar à morte. As graves complicações decorrentes da doença, podem determinar o internamento em UTI.

 

Tratamento medicamentoso: é necessário para estabilizar o quadro clínico do paciente.

 

Tratamento psicofarmacoterápicopode ser necessário, drogas antidepressivas, notadamente com tricíclicos que tenham como efeito colateral também o estímulo do apetite e ganho do peso. Em alguns casos particulares, o uso de  drogas sedativas, pode ser indicado.

Tratamento dietoterápico: é fundamental na paciente com Anorexia nervosa, devido ao emagrecimento descontrolado e aos graves distúrbios nutricionais que esse emagrecimento excessivo acarreta no organismo. Depois de estabilizar a paciente, deve-se iniciar a reeducação alimentar.

Tratamento psicológico: é essencial para tentar descobrir o motivo que levou a paciente ao quadro evolutivo da doença, e tentar reverter o quadro. A família deve fazer parte dessa avaliação, para poder verificar se a estrutura familiar, pode ter contribuído para o fato. Através de entrevistas individuais com a família, pode-se levantar o perfil familiar e a estrutura familiar.

Tratamento psiquiátrico: é necessário quando o quadro evolui para situações que evidenciem distúrbios ou transtornos mentais e tentativa de suicídio (caso gravíssimo). Nesses casos específicos, o paciente deve ser internado em uma ala psiquiátrica do hospital, pelo menos durante alguns dias para tratamento específico.

Tratamento psicoterápico: distúrbios alimentares acarretam tanto sintomas físicos quanto psíquicos. A psicoterapia individual é indicada visando a modificação do comportamento, das crenças e dos esquemas falhos de pensamento. Alguns tipos de psicoterapia têm bons resultados:

·         Terapia gestalt: a situação aqui-e-agora  do paciente é tomada como ponto de partida. O tom da voz, gestos e postura corporal do paciente ao narrar uma determinada situação fornece informações importantes ao terapeuta.

·         Psicanálise: escola terapêutica que toma como ponto de partida um conflito inconsciente como  causa do transtorno. À medida que os sentimentos afloram e tornam-se conscientes ao longo de anos de tratamento, é possível que se abrandem as conseqüências de vivências  traumáticas e que o paciente se abra a novas experiências.

·         Terapia sistêmica: de acordo com a compreensão sistêmica o ser humano é uma parte da rede de relações de seu ambiente. Sintomas da doença são a expressão de determinados modelos relacionais. As intervenções terapêuticas têm por meta tornar claros esses modelos e com isso ampliar as possibilidades de ação dos envolvidos.

·         Terapia comportamental: método que contém um espectro de técnicas fundadas sobre leis de aprendizagem, conhecimentos provenientes da psicologia experimental e social e conhecimentos médicos sobre o corpo.

Prognóstico:  O curso da Anorexia é muito variável e o prognóstico como um todo não é bom. Tanto pode ocorrer uma recuperação espontânea, como resultar em morte, por inanição. Mesmo nos pacientes que se recuperam, a preocupação com os alimentos e o peso corporal permanecem, e os relacionamentos sociais continuam pobres. A grande maioria das pacientes mantém alterações psicológicas ao longo de toda a sua vida.

 

Cerca de 50% das anoréxicas migram para bulimias em algum momento do tratamento. Essa migração altera tanto o tratamento como o prognóstico.

 

Estatisticamente, as chances não são boas: apenas 30% das pacientes anoréxicas superam seu vício, ou seja, ganham peso normal e voltam a ter menstruações regulares; 35% voltam a engordar  um pouco embora sua atitude deturpada diante das questões de peso e forma do corpo persista.; 25% continuam sendo crônicas. Nesse universo, 10% jamais encontram a cura: morrem pelas conseqüências da inanição, suicídio ou desequilíbrio eletrolítico.

 

Obs: Cerca de 70% das pacientes anoréxicas internadas, recuperam o peso com um único objetivo: deixar a internação.  Em casa, elas voltam a restringir sua alimentação. Isso ocorre porque, um dos objetivos do tratamento para as pacientes anoréxicas,  é que ela ganhem peso, e justamente esse ganho de peso é o que elas mais temem. Por isso a necessidade de obter a alta hospitalar o mais rápido possível.

 

Complicações

·         Desidratação grave.

·         Desnutrição grave.

·         Distúrbios cardiovasculares.

·         Distúrbios neurológicos.

·         Distúrbios dermatológicos.

·         Hipotermia.

·         Hipercolesterolemia.

·         Hipomagnesemia.

·         Hipotensão grave.

·         Bradicardia.

·         Hipozinquemia.

·         Hipofosfatemia.

·         Hiperamilasemia.

·         Hiperadrenocorticismo

·         Alcalose metabólica.

·         Hipocloremia.

·         Hipocalemia.

·         Acidose metabólica.

 

Devido às complicações, a Anorexia nervosa pode levar à morte, em conseqüência das alterações orgânicas e metabólicas secundárias à desnutrição e desequilíbrio eletrolítico.

A Anorexia e a Psicologia

A recusa em comer vem sendo identificada como uma doença psicológica. É um transtorno psiquiátrico sem nenhuma causa orgânica, metabólica ou genética. As dietas podem começar por cortar alguns tipos de alimentos e terminar por adotar uma dieta muito pouco nutritiva e saudável. Passa a não absorver os nutrientes fundamentais para o organismo. A pessoa anoréxica tem um comportamento de negar a comer. No caso de adolescentes, algumas meninas  com Anorexia nervosa, dizem que gostariam de continuar crianças, que não tinham interesse em crescer, ter as formas de uma mulher e assumir as responsabilidades da vida adulta. No caso de mulheres mais velhas, estudos indicam que a postura de uma supermulher que tem de cuidar da casa, se preocupar com a família, com o trabalho e, além disso, estar bonita. E estar bonita está cada vez mais associado a estar magra. Por isso a necessidade de emagrecer, só que tem algumas mulheres que perdem o controle e não conseguem identificar quando devem parar de emagrecer.

As anoréxicas investiram tanto esforço em negar  suas necessidades alimentares e sentimentos próprios, que não sabem o que sentem. O processo de negar e suas dietas exageradas afetam sua capacidade de pensar e discriminar as coisas. Não há a consciência que correm perigo e acham que não precisam de ajuda. As pessoas à sua volta  sentem uma imensa impotência, por não entenderem e não conseguirem ajudá-la.  Enquanto mantém sua dieta, a anoréxica sente-se poderosa, triunfante, sente que vence a si mesma. A questão básica é a necessidade  do controle: A pessoa tenta exercer controle sobre suas necessidades biológicas e em todas as outras áreas de sua vida. São em geral pessoas muito auto críticas. Esse controle aparece na comida, no sono e em relação ao dinheiro. Tendem também a restringir seu próprio prazer e lazer, ou seja, o que começa como uma alimentação restritiva, se torna um estilo de vida que afeta toda sua existência. A Anorexia para e inibe seu crescimento e desenvolvimento. Pode-se entender que o propósito inconsciente é a recusa ao processo de desenvolvimento e a fantasia de retornar ao estado pré-puberdade.  É comum as pessoas anoréxicas não se casarem, ou em um casamento negar suas necessidades assim como as de seu parceiro

Transtornos alimentares e a  Internet

Os pais devem  ficar atentos à determinados sites ou grupos on-line na Internet, que promovem o distúrbio alimentar como estilo de vida. Nesses ambientes virtuais as adolescentes, incentivam umas às outras a favor da Bulimia nervosa ou da Anorexia nervosa, trocam dicas de alimentação pouco saudável, competem entre elas para ver quem perde peso mais rápido, dividem truques para manter a doença em segredo dos pais e colegas. Também trocam imagens entre elas, difundem esses sites nas escolas ou em grupos e ainda mantêm a lista desses sites sempre atualizada.  Os pais precisam conversar e aconselhar seus filhos sobre o que vêem, mandam e recebem na Internet.

Alguns pais que não se interessam ou que não sabem o que é Internet, devem tentar aprender a manipular um computador e aprender a navegar na Internet, para que eles possam entender como seus filhos, têm acesso a determinados sites de propaganda sobre a Bulimia nervosa e a Anorexia nervosa. Talvez, eles vendo o conteúdo e as imagens desses sites, possam entender a preocupação de algumas ONGs em  desaconselhar esses sites, perante os provedores. A Bulimia nervosa e a Anorexia nervosa são consideradas doenças, que podem causar graves complicações e seqüelas tanto físicas como mentais em adolescentes e adultos jovens. A Anorexia nervosa inclusive pode matar por inanição ou caquexia,  o seu portador.

Transtornos alimentares e a Mídia

Os rígidos padrões de beleza difundidos pela mídia, são considerados uma das principais causas apontada pelas adolescentes para os transtornos alimentares. Os padrões de beleza atuais e a rejeição social à obesidade feminina fazem com que as adolescentes sintam um impulso incontrolável de estar tão delgadas como as "top models" que a publicidade e os meios de comunicação apresentam diariamente no glamour da glória e do sucesso. Na ânsia de se enquadrar nos atuais padrões de beleza, milhares de pessoas travam  uma busca insaciável pela perfeição. De acordo com psiquiatras e psicólogos, as adolescentes bulímicas e anoréxicas possuem distorção da imagem corporal. Quanto mais magra a garota está, mais gorda ela se , e o estopim para desencadear esse processo doentio, pode ser a imagem da magreza, que o mercado da moda e a mídia colocam como ideal.

Transtornos alimentares e a Psicologia

Distúrbios alimentares ocorrem nas mais diversas famílias e em todas as classes sociais. Há, entretanto, traços comuns que se evidenciam no ambiente de pessoas com o problema. Justamente nos casos de Anorexia e Bulimia a família tem boa situação, instrução acima da média e passa a impressão de ser impecável e harmoniosa. Não é raro que prevaleça grandes expectativas: todos se orientam rigorosamente de acordo com determinadas noções de valor e não dão vazão a sentimentos desagradáveis como raiva e ciúmes, de modo que os conflitos ficam latentes no subsolo, em vez de vir à tona. Os verdadeiros problemas por trás da fachada idealmente esbelta, só são descobertos bem mais tarde pelos terapeutas. Os propósitos psicológicos certamente se relacionam com o mundo interno da pessoa e seu ambiente familiar. Sempre existe algo  para além do desejo de emagrecer. Os transtornos alimentares não dizem respeito somente à comida. Há nitidamente um segundo ganho, pois os transtornos  alimentares são na realidade defesas inconscientes sobre o desafio de enfrentar a vida. Esta foi a forma encontrada por essas pessoas para lidar com pensamentos, sentimentos difíceis para si, como por exemplo, morte de uma pessoa querida, perdas, maus tratos, abuso sexual, etc.

Quando a dieta e o seu  padrão de beleza imposto, passam a ser o seu único objetivo a serem alcançados, alguma  coisa pode estar errada, com essa pessoa. A preocupação com o corpo  e com a alimentação, não pode ser um fator que restringe as possibilidades da vida, mas sim que as amplia. Por estar diretamente relacionada  com os transtornos alimentares, fisiologicamente, o estresse passou  a ser o representante emocional da ansiedade. Psicologicamente, a ansiedade pode mobilizar as atividades psíquicas e comprometer desde a atenção e memória, até a realidade.  Em geral, as pessoas não tem consciência e não conseguem relacionar os eventos de sua estória de vida com seus transtornos atuais. No caminho para a cura, o afeto familiar, aliado à ajuda profissional, é o que conta para o doente aceitar o próprio corpo, desistindo de vez da idéia de uma perfeição inatingível. Sentir-se aceito e protegido ajuda a romper o círculo vicioso de excesso e privação alimentar.

A pessoa com transtorno alimentar, não quer perder o controle sobre o corpo, e teme qualquer coisa, que possa ameaçar esse controle.


Dúvidas de expressões e termos médicos, consulte o Glossário geral.